Por Kathlyn Isabela dos Santos *
(contando a história de uma pioneira)
(contando a história de uma pioneira)
Ah, como é bom relembrar o
que vivi desde que eu e minha família viemos para Maringá. Meu pai pegou uma
empreita de café para cuidar. Trinta e dois mil pés de café.
Quando chegamos aqui, os
caboclos já haviam limpado o terreno e plantado o café. Construíam também uma
casinha com a mesma madeira das árvores cortadas. Até o teto era de tabuinha.
Em volta da empreita era só mato, mato, mato...
Éramos oito irmãos, além do meu
pai e da minha mãe para trabalhar na empreita. Não era fácil morar aqui
naquele tempo. Cemitério, por exemplo, não havia. Só existia o cemitério dos
caboclos. Quando eles morriam, eram enterrados nas beiras das estradinhas. Quando
era gente que tinha família, era enterrada em Mandaguari. Hoje quando relembro
disso vejo como a vida era injusta, pois eles trabalhavam tanto e não tinham
nem um lugar descente para serem enterrados.
Eram tempos difíceis, mas
havia muita beleza. Uma beleza diferente
da de hoje. Hoje se destacam os grandes prédios, as avenidas largas da cidade
canção. Antigamente era a natureza.
Havia setenta alqueires de
mata perto da minha casa. Era lindo de se ver. Existiam muitos animais que hoje
não vejo mais. Recordo-me dos veados saltitando pelas terras onde morávamos.
Eram caçados para comer. Ninguém se importava se um dia eles iriam entrar em
extinção.
Havia muitos pássaros também que moravam
dentro dessa mata. Os pés de mamão no meio da roça era coisa mais linda do
mundo. A cor e o aroma daquelas frutas convidavam os tucanos a sair da mata. Com
aquele bico enorme, saboreavam os mamões amarelinhos com muito gosto.
E quando o café começou a
florir. Que beleza! Vinha gente de todo lugar ver. A plantação vestiu-se de
noiva. Era uma grinalda branca que se estendia até se perder de vista. Aquele
véu branco cobriu a coisa mais valorosa da época: o café. Ah, como era lindo o
café florido!
Mas eu não trabalhei só na roça. Um pessoal - não sei
como - sabia que eu costurava vestidos de noiva. No dia do casamento, eu era
uma convidada especial. Levava o vestido e arrumava os últimos detalhes. Íamos
todos de caminhão. Quando chovia, chegávamos molhados na casa da noiva. Bailávamos
a noite toda até ficar com as canelas sujas de terra. Ah, que festas!
Meu pai era bom. Deixava a
gente festar, deixava namorar, mas tinha que ser do jeito dele. Em 1947,
dávamos a desculpa de ver o avião, mas queríamos mesmo era olhar os rapazes e
namorar. Foi lá que conheci meu velho.
Logo que casei, fui morar na
fazenda do senhor Alfredo Niffler. Naquele tempo, lavávamos roupa em um pequeno
córrego de águas cristalinas. Fecho os olhos e ainda sinto a água fresca
correndo entre os meus braços. Ah, que saudade! Hoje nesse lugar há um lindo lago.
Virou cidade. Ali agora é o parque Alfredo Niffler, onde as pessoas caminham,
as crianças correm e brincam alegres.
Lembro-me de Alfredo Niffler
e de suas histórias do Maringá velho. Ele dizia que aqui era mesmo o sertão,
com cheiro de terra vermelha, que esbanjava poeira em dia de sol e, nos dias de
chuva, a lama subia até os tornozelos. E era assim mesmo.
Naquele Maringá velho, havia
poucas casas, alguns comércios, mas médicos e segurança não havia. Falam que
hoje matam muita gente, mas naquele tempo é que morria. Minha família morava para
cima da água. E uma mulher, que morava para baixo da água, casou-se com um
homem mais novo. Ela já tinha cinco filhos. Às escondidas, o homem engravidou a
enteada. A moça foi ganhar o filho no meio do mato e jogou o bebê para os
porcos. Pensa que aconteceu alguma coisa com eles? Não aconteceu. Era tudo
sertão, não tinha leis.
Quando chegou o tempo da
colheita do café, fui visitar minha mãe. Ela tirou do meio do arroz latinhas
cheias de dinheiro. O café dava muito dinheiro naquela época. Meus irmãos
continuaram na empreita, mas todos compraram sítios e ficaram bem de vida. Tudo
com o suor dos braços.
Mas isso tudo passou e são apenas lembranças que guardo
em meu coração. Hoje sinto falta das pessoas: meus pais, irmãos, amigos, e,
principalmente, do meu velho. Mas sou passageira e estou pronta, porque a morte
é nossa. Quando ela vem uns vão, outros ficam.
Aluna vencedora do fase municipal das Olimpíadas de Português no gênero Memórias Literárias

Fiquei emocionada quando li essas memórias pois meu pai é um pioneiro desbravador e viveu tudo isso... Sr. Antonio Potrazio Cabral que chegou por aqui em 1944....parabéns pelo trabalho professora e aluna..bjos
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